Em 21 de julho de 2026, o Conselho Federal de Odontologia editou a Resolução CFO-297, publicada no Diário Oficial da União em 24 de julho. A norma proíbe o cirurgião-dentista de usar o polimetilmetacrilato (PMMA) como preenchedor injetável em procedimentos exclusivamente estéticos.
O uso continua permitido apenas nos tratamentos reparadores autorizados pela Anvisa, como a correção de volume por sequelas de doenças e a lipodistrofia associada ao tratamento do HIV. Nesses casos, o profissional precisa de capacitação específica e não pode usar o produto em quantidade, técnica ou finalidade diferentes das aprovadas.
A proibição vale daqui para frente. Mas o PMMA é permanente, e milhares de pessoas carregam o material na face há anos. Quando surge uma complicação, a pergunta que chega ao Judiciário é sempre a mesma: o dano existe, qual é a sua extensão e ele tem relação com aquela aplicação? Responder a isso exige uma perícia capaz de medir o que é mensurável e de ser honesta sobre o que não é.
O que é o PMMA e por que ele não vai embora
O PMMA é um preenchedor definitivo formado por microesferas de polímero suspensas em um veículo, como colágeno, metilcelulose ou ácido hialurônico. O veículo é absorvido, mas as microesferas permanecem nos tecidos para sempre.
No caso do produto comercializado como Artecoll, por exemplo, as microesferas medem de 30 a 40 micrômetros. Esse tamanho impede que o organismo as elimine: os macrófagos não conseguem fagocitá-las, e o tecido responde envolvendo o material em fibrose.
É essa reação que dá o volume desejado, e é também ela que, anos depois, pode se transformar em complicação. A Anvisa classifica o PMMA como produto para saúde de classe de risco IV, a categoria mais alta.
Complicações que aparecem anos depois
Uma série brasileira de 209 casos de complicações por PMMA na face, publicada na Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, encontrou granuloma em 135 pacientes, edema em 120 e inflamação em 78. O tempo mediano entre a primeira aplicação e o início da complicação foi de 71 meses, quase seis anos.
Uma revisão de 20 anos de literatura reuniu 587 casos de complicações relacionadas ao PMMA, 64% deles no Brasil. Entre os casos graves estavam insuficiência renal, hipercalcemia, choque séptico, infecções e necrose de tecidos.
O PMMA também pode migrar do local de aplicação. A literatura descreve três caminhos: a via sanguínea, por injeção acidental em vaso; a via linfática; e o transporte das microesferas por células de defesa até os linfonodos.
Para a perícia, essa latência é o centro do problema. Entre a aplicação e o processo, o paciente pode ter feito outros procedimentos, com outros produtos e outros profissionais. O prontuário da época, quando existe, muitas vezes não registra o produto, o lote ou o volume aplicado.
Por que é tão difícil comprovar a presença do PMMA
Não existe um exame simples que diga, com segurança, “aqui há PMMA”. O diagnóstico das complicações costuma combinar a história do paciente, o exame clínico e exames de imagem como ultrassom, tomografia e ressonância magnética. Cada um tem limites:
- Exame clínico: um granuloma por preenchedor pode ser confundido com cisto, tumor de glândula salivar ou outras lesões de partes moles, especialmente nos lábios.
- Ultrassom: é útil para localizar granulomas, mas depende muito da experiência de quem examina, não tem critérios consolidados para diagnosticar reações inflamatórias e pode não ter pontos de referência anatômicos claros.
- Ressonância magnética: ajuda a mapear a extensão das lesões, mas a aparência na imagem varia conforme o tipo de preenchedor. Ela mostra a reação do tecido, não a “assinatura” de um produto específico.
- Biópsia: o exame histológico confirma a reação de corpo estranho e pode mostrar as microesferas. Mas exige retirar tecido da face, e uma amostra negativa não exclui o material, já que ele pode estar em outro ponto ou ter migrado.
Na prática, a identificação do PMMA depende de reunir peças: prontuário, notas fiscais, fotos antigas, relato do paciente e achados de imagem. A perícia precisa dizer com clareza o que está comprovado e o que é apenas compatível com PMMA.
Por que a remoção muitas vezes é inviável
O PMMA não tem antídoto. Diferente do ácido hialurônico, que pode ser dissolvido com hialuronidase, não há substância capaz de desfazer as microesferas.
Como o material se integra ao tecido ao redor, retirá-lo isoladamente é muito difícil. Diante de granulomas, inflamação crônica, fibrose ou infecção com biofilme, a revisão da Revista Brasileira de Cirurgia Plástica aponta que a única saída costuma ser a cirurgia, retirando o PMMA junto com tecido saudável vizinho, o que deixa sequelas permanentes.
Mesmo a cirurgia raramente é completa. O cirurgião precisa poupar nervos, como os ramos do nervo facial, e evitar criar uma nova deformidade de contorno. Por isso, muitas vezes só parte do material é retirada. Técnicas como laser intralesional e ondas acústicas vêm sendo estudadas para facilitar a remoção, mas não resolvem o problema de forma previsível.
Para o processo, isso tem uma consequência direta: na maioria dos casos, o dano não pode ser simplesmente desfeito. A discussão passa a ser medir a sequela que fica e estimar o que um tratamento pode, de fato, melhorar.
O que a perícia consegue medir com precisão
Se a presença do material é difícil de provar e a remoção é incerta, a consequência estética e funcional pode ser medida com objetividade. É aqui que a tecnologia pericial faz diferença. Na Zaideman & Velasco, estes exames são feitos na mesma sessão do exame pericial:
- Escaneamento facial 3D: gera um modelo tridimensional da face, sem radiação. Permite medir em milímetros e em volume os nódulos, depressões e deformidades de contorno, e comparar o lado afetado com o lado sadio.
- Mapa de assimetrias: a sobreposição do modelo 3D com sua imagem espelhada mostra, em mapa de cores, onde e quanto a face difere entre os lados. A diferença deixa de ser uma impressão visual e vira um número.
- Acompanhamento da evolução: exames 3D repetidos em datas diferentes mostram se a lesão está crescendo, estável ou regredindo com o tratamento. Estudos com estereofotogrametria mostram boa confiabilidade dessas medições de volume facial.
- Análise multiespectral da pele (Meicet Skin Analyser): documenta eritema, alterações vasculares, pigmentação, cicatrizes e textura da pele sobre a área afetada, com luz polarizada e ultravioleta. Alterações que a fotografia comum não mostra passam a ter registro e extensão.
- Fotografia forense padronizada: registra a face com posição, iluminação e escala controladas, para comparação com fotos anteriores do próprio paciente.
Quando a identificação do material exige ultrassom especializado, ressonância ou biópsia, o perito pode indicar esses exames e interpretar os laudos dentro do conjunto de provas. O laudo final separa três coisas: o dano medido, o que é compatível com PMMA e o que está efetivamente comprovado.
Quesitos que costumam decidir esses processos
Em ações envolvendo PMMA, perguntas bem formuladas evitam um laudo genérico. Alguns exemplos:
- Há elementos técnicos que permitam afirmar que o produto aplicado foi PMMA? Quais são eles e qual o seu grau de certeza?
- O periciando realizou outros procedimentos com preenchedores na mesma região, antes ou depois?
- Qual a extensão do dano estético, medida em milímetros, volume e assimetria entre os lados da face?
- Há alterações na pele sobre a área tratada, como eritema, pigmentação ou cicatriz? Qual a sua extensão?
- O quadro é estável ou está em evolução?
- A remoção total do material é tecnicamente viável? Quais os riscos e as sequelas esperadas?
- O uso do produto, à época, respeitava as indicações do registro na Anvisa e as normas profissionais vigentes?
Orientações práticas
- Para advogados: reúnam prontuário, termo de consentimento, notas fiscais e fotos de antes e depois. O quesito sobre a identificação do produto é tão importante quanto o quesito sobre o dano.
- Para pacientes: guardem todos os registros e fotografem a evolução da lesão com regularidade. Não esperem o quadro piorar para buscar avaliação.
- Para cirurgiões-dentistas: um prontuário com produto, lote, volume e área de aplicação é a melhor defesa. A responsabilidade é analisada à luz das normas vigentes na data do procedimento, mas, desde a Resolução CFO-297/2026, o uso estético do PMMA é vedado ao dentista.
Perguntas frequentes
O dentista ainda pode aplicar PMMA?
Somente em tratamentos reparadores autorizados pela Anvisa e com capacitação específica. Para fins exclusivamente estéticos, o uso é proibido pela Resolução CFO-297/2026.
Quem fez PMMA há anos e não tem sintomas precisa fazer algo?
Não há indicação de retirar um material que não causa problemas. Mas vale guardar os registros da aplicação e procurar avaliação diante de nódulos, inchaço, vermelhidão ou endurecimento.
Um exame de imagem comprova que o produto é PMMA?
Nem sempre. Ultrassom, ressonância e tomografia mostram a reação e a extensão das lesões, mas a identificação do produto costuma depender da soma de exames, documentos e, às vezes, de biópsia.
O PMMA pode ser removido?
Em geral, só por cirurgia, e muitas vezes de forma parcial, porque o material se integra ao tecido e está próximo de nervos e vasos.
O que a perícia consegue provar mesmo sem identificar o produto?
A extensão do dano: volumes, deformidades e assimetrias medidos em 3D, alterações de pele documentadas por análise multiespectral e a evolução do quadro ao longo do tempo.
- Resolução CFO-297, de 21 de julho de 2026 — Diário Oficial da União, 24/07/2026.
- CFO proíbe dentistas de usar PMMA para procedimentos estéticos faciais — Metrópoles.
- Complicações relacionadas ao uso de polimetilmetacrilato na face: análise de 209 casos — Revista Brasileira de Cirurgia Plástica.
- Riscos e complicações do PMMA: revisão integrativa de 20 anos — Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, 2024.
- Granuloma de corpo estranho por PMMA: relato de caso — Revista Brasileira de Cirurgia Plástica.
- Reação nodular 15 anos após Artecoll e remoção com laser (relato) — Revista Brasileira de Cirurgia Plástica.
- Magnetic resonance imaging appearance of foreign-body granulomatous reactions to dermal cosmetic fillers — Imaging Science in Dentistry, 2017.
- Tratamento de complicações do PMMA com laser intralesional (relato) — PMC.
- Uso e acurácia da estereofotogrametria na medição do volume facial — Revista Brasileira de Cirurgia Plástica.
Complicações por preenchedores na face exigem medidas objetivas.
Atuamos como peritos do juízo e assistentes técnicos em casos de complicações por preenchedores, com escaneamento facial 3D, análise multiespectral da pele e fotografia forense realizados no próprio exame pericial, em São Paulo.
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