As chamadas canetas emagrecedoras, como a semaglutida (Ozempic, Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro), mudaram o tratamento da obesidade. Em estudo publicado no New England Journal of Medicine, quem usou semaglutida perdeu em média 14,9% do peso corporal em 68 semanas.
Essa perda de peso também aparece no rosto. E isso cria uma pergunta nova para a perícia em Harmonização Orofacial: quando um paciente diz que o preenchimento “sumiu”, que o rosto ficou assimétrico ou envelhecido, a causa foi o procedimento ou o emagrecimento que aconteceu depois?
Se o uso do medicamento não for investigado, um laudo pode atribuir ao profissional uma mudança que vem do próprio corpo do paciente. O contrário também acontece: o emagrecimento pode ser usado para encobrir uma falha técnica real.
O que a perda de peso rápida faz com a face
O quadro ganhou o apelido de “Ozempic face”. O termo não é um diagnóstico médico, mas descreve um conjunto de mudanças: perda de gordura e de músculo, perda de colágeno e elastina e flacidez da pele. O resultado lembra o envelhecimento natural, só que em pessoas mais jovens e em muito menos tempo.
Uma revisão crítica de 44 estudos, publicada em 2026, concluiu que o fenômeno não é uma doença causada pelo remédio em si. É o efeito da perda de peso rápida ou acentuada, somado ao envelhecimento que a pessoa já tinha.
Os números mostram que não é raro. Em uma pesquisa com 504 usuários dessas medicações, publicada no Journal of Cosmetic Dermatology, 10,9% relataram perda de volume no rosto, 8,3% flacidez e 7,7% queda do contorno da mandíbula.
Um corpo em mudança metabólica responde diferente aos preenchedores
O efeito dessas medicações não se resume a “menos gordura”. O paciente passa por uma mudança metabólica, e isso pode alterar o resultado de procedimentos que dependem do tecido ao redor.
- Preenchedores de ácido hialurônico: ocupam espaço, mas o contorno final depende da gordura e da pele que os envolvem. Quando essa base diminui, o mesmo volume de produto pode parecer menor, mal posicionado ou deixar a face desproporcional.
- Bioestimuladores de colágeno, como ácido polilático e hidroxiapatita de cálcio: dependem da resposta do próprio organismo para produzir colágeno. Pesquisadores apontam que a redução de gordura da derme e da síntese de colágeno, ligada à perda de peso rápida, pode comprometer essa resposta. Dermatologistas lembram que, sem ingestão adequada de proteínas, o bioestimulador não tem como cumprir seu papel.
- Células da gordura e da pele: há estudos em laboratório indicando que essas medicações podem reduzir a energia disponível para as células-tronco da gordura se transformarem em células produtoras de colágeno, elastina e ácido hialurônico.
As revisões científicas são cautelosas: os efeitos dessas medicações sobre a pele parecem múltiplos, e ainda faltam estudos clínicos bem desenhados. Para a perícia, a conclusão prática é clara: o uso de canetas emagrecedoras é uma variável que pode alterar o resultado e precisa ser investigada.
E a toxina botulínica?
Há relatos de profissionais e pacientes de que a toxina botulínica duraria menos em quem usa canetas emagrecedoras. Um estudo feito por simulação em computador sugeriu uma redução de cerca de 20 para 16 semanas, mas os próprios autores reconhecem que são necessários estudos em pacientes reais. Parte dessa impressão pode vir apenas da perda de volume facial, que muda a aparência do resultado.
Por ora, não há base científica sólida para afirmar essa interação. Mas, em um processo, o uso do medicamento é mais um fator que o laudo precisa registrar e considerar.
Falha do procedimento ou efeito do emagrecimento?
Essa é a pergunta central do nexo causal. Algumas situações típicas que chegam à perícia:
- O paciente fez preenchimento de malar e, meses depois, começou a usar semaglutida. Hoje alega que o resultado “desapareceu” e que o rosto ficou abatido.
- A paciente fez bioestimulador e não viu melhora na flacidez. Ao mesmo tempo, perdeu 15 kg com tirzepatida.
- O preenchimento ficou aparente ou com contorno irregular depois de uma grande perda de peso, porque a gordura que o disfarçava diminuiu.
Na outra direção, o emagrecimento não pode servir de desculpa para tudo. Produto em plano errado, volume excessivo, assimetria criada na aplicação e complicações vasculares têm sinais próprios, que não se explicam pela perda de peso.
Para separar uma coisa da outra, a perícia precisa de três informações: como era a face antes do procedimento, como ficou logo depois e como está hoje, cruzadas com as datas de início do medicamento e com a curva de peso do paciente.
O que a perícia consegue medir
A perda de peso afeta a face de forma difusa: os dois lados, vários compartimentos de gordura e a pele como um todo. Uma falha técnica tende a ser localizada: um ponto, um lado, um plano de aplicação. Medir esse padrão é o que permite separar as causas. Na Zaideman & Velasco, estes exames são feitos na mesma sessão do exame pericial:
- Escaneamento facial 3D: mede em milímetros e em volume a perda nos diferentes compartimentos da face. Uma perda distribuída e simétrica aponta para emagrecimento; uma alteração concentrada na área tratada aponta para o procedimento.
- Mapa de assimetrias: a comparação entre os lados da face mostra se a diferença existe e onde está. O emagrecimento costuma afetar os dois lados; uma assimetria nova e localizada pede outra explicação.
- Comparação com registros anteriores: fotografias padronizadas e modelos 3D de datas diferentes mostram a evolução. Quando há fotos do pré e do pós-procedimento imediato, é possível ver se o resultado existia antes do emagrecimento.
- Análise multiespectral da pele (Meicet Skin Analyser): documenta textura, rugas, flacidez aparente, pigmentação e vermelhidão. Ajuda a mostrar uma piora geral da qualidade da pele, compatível com a perda de colágeno do emagrecimento rápido, ou alterações restritas à área tratada.
- Tomografia cone beam: em casos de preenchimento estrutural ou cirurgia, permite avaliar a base óssea e descartar outras causas de mudança de contorno.
O laudo cruza essas medidas com a linha do tempo: datas dos procedimentos, início e dose do medicamento e variação de peso.
Quesitos que ajudam a esclarecer o caso
- O periciando usou ou usa medicamentos para emagrecimento, como semaglutida ou tirzepatida? Desde quando, em que dose e com que variação de peso?
- O início do medicamento foi antes ou depois do procedimento questionado?
- A perda de volume facial é difusa e bilateral ou localizada na área tratada?
- Há registros fotográficos ou 3D do pré-procedimento e do pós-procedimento imediato? O resultado estava presente antes do emagrecimento?
- Há sinais de erro técnico independentes da perda de peso, como produto em plano inadequado, excesso de volume ou assimetria criada na aplicação?
- O termo de consentimento ou o prontuário registram o uso do medicamento e a orientação sobre seus efeitos no resultado?
Orientações práticas
- Para cirurgiões-dentistas: pergunte e registre no prontuário o uso de canetas emagrecedoras, a dose e o peso do paciente em cada sessão. Inclua no termo de consentimento a possibilidade de o emagrecimento alterar o resultado. Fotografe de forma padronizada antes e logo após cada procedimento.
- Para pacientes: informe ao profissional qualquer medicamento para emagrecer, mesmo que comece depois do procedimento. Guarde fotos e registros de peso.
- Para advogados: o histórico de uso do medicamento e a curva de peso devem estar nos quesitos. Sem eles, o laudo pode chegar a uma conclusão incompleta, para qualquer um dos lados.
Perguntas frequentes
Quem usa caneta emagrecedora pode fazer harmonização?
Pode, mas o profissional precisa saber do uso. O plano de tratamento e as expectativas devem considerar que a face ainda pode mudar enquanto o peso estiver caindo.
O emagrecimento pode fazer o preenchimento “sumir”?
O produto não desaparece por causa do medicamento, mas a perda da gordura ao redor muda o contorno e pode fazer o resultado parecer menor ou desproporcional.
Bioestimuladores funcionam em quem está emagrecendo rápido?
A resposta depende da produção de colágeno do próprio organismo. Perda de peso rápida e alimentação com pouca proteína podem reduzir essa resposta.
A caneta emagrecedora reduz o efeito da toxina botulínica?
Há relatos e um estudo de simulação sugerindo isso, mas ainda não há comprovação científica sólida.
Como a perícia diferencia falha técnica de efeito do emagrecimento?
Comparando registros de antes e depois, medindo em 3D se a perda de volume é difusa ou localizada e cruzando tudo com as datas do medicamento e a variação de peso.
- Ozempic Face: An Update and Critical Review — JCRM, 2026.
- Semaglutide “Ozempic” Face and Implications in Cosmetic Dermatology.
- More GLP-1 users are seeking plastic surgery for “Ozempic face” — NBC (pesquisa com 504 usuários, Journal of Cosmetic Dermatology).
- Effects of GLP-1 receptor agonists on skin homeostasis and skin aging processes — Vilnius University.
- Mechanotransduction of Collagen Biostimulators and GLP-1 RA–Associated Facial Aging — PMC.
- The science behind “Ozempic face” — Healio, 2025.
- How GLP-1–associated weight loss is changing aesthetics — The Derm Digest.
- PLLA e ácido hialurônico após perda de peso por agonistas de GLP-1 — Aesthetic Surgery Journal.
- Does Botox wear off quicker for Ozempic patients? — Harley Academy.
Falha técnica ou efeito do emagrecimento? A resposta está nas medidas.
Atuamos como peritos do juízo e assistentes técnicos em processos de Harmonização Orofacial, com escaneamento facial 3D, análise multiespectral da pele e fotografia forense realizados no próprio exame pericial, em São Paulo.
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